Movimentando o Ser!


"Fazer ballet com a Thaís foi um dos presentes mais prezados que me deu morar no Rio.
Lembro de sair das aulas me sentindo como se fosse uma borboleta, leve, alegre, disposta. A música, a energia, o ballet, o élan, as pessoas na aula e principalmente a Thaís me enchiam de uma harmoniosa energia.
Então quando fiquei grávida, achei que uma atividade que fazia tanto bem em mim, só podia ser boa para meu bebê. Queria compartilhar com esse novo ser esse estado de equilíbrio e alegria que me trazia o ballet.
As músicas, o encontro com minha respiração, o prazer de movimentar o corpo, deixando a alma se expressar, tudo isso queria que ele sentisse.
Felizmente minha gravidez foi 100% tranquila, sem complicações, e minha médica me liberou para fazer tudo o que já fazia antes de ficar grávida, só que com um pouco mais de cuidado. Isso me deu muita felicidade, pois engravidar não significava  que teria que deixar coisas que me faziam bem, era só vivenciar minha vida com esse novo ser, curtindo tudo com ele.
Eu sentia que queria mostrar para ele/a (no momento ainda não sabia que seria uma menina) todas as coisas belas e prazerosas que lhe aguardavam quando nascesse. A medida que a barriga crescia , a comunicação com ele na dança também era mais forte.
Foi lindo demais que uma amiga de ballet também ficou grávida e então muitas vezes dançávamos as quatro, as mães e as meninas na barriga.
A gravidez é um estado de plenitude e felicidade, de muita emoção, de projeção, e poder dançar nesse estado potencializava mais ainda essas sensações. É verdade, e completamente normal, sentir medos, inseguranças, ansiedades durante a gravidez de primeira viagem. Principalmente porque na dança a cabeça, a intelectualidade, e ego controlador perdem a relevância frente à sensação pura, a percepção e a entrega. Pelo menos assim eu vivencio nas aulas da Thaís.
Minha barriga estava cada vez maior e eu conseguia fazer tudo, ou quase tudo (não pulava claro!). Acho que desde o ponto de vista físico me ajudou muito porque continuamente estava fortalecendo e alongando o corpo, e assim me acostumando com minhas novas dimensões (que cada dia eram maiores). Eu me agachava, fazia grand ecart, e realmente a barriga não me limitava. Não tive quase dores nas costas, conseguia dormir bem, e caminhava normalmente entre 4 e 8 quilômetros. Lembro do rosto de surpresa de algumas pessoas e para mim tudo isso era normal. Assim não houve essa sensação de limitante que eu antes pensava que iria sentir quando engravidar, como se a gravidez fosse doença, e então um pouco difícil para mulheres que são muito ativas e que necessitam o movimento.
Eu continuava sendo eu, e agora tinha um ser que me acompanhava desde dentro, com quem sentia mais prazer ainda vivenciando coisas belas e saudáveis. Esse novo ser, esse milagre era meu companheiro e parceiro interior que me dava novas forças e estímulo para abrigar as sensações mais positivas. É instintivo, acho, que a mulher grávida procure se rodear de coisas positivas, saudáveis, das coisas que seu corpo pede (assim sejam combinações mais loucas). No meu caso, pedia dança e a energia da aula.
Assim tenho uma lembrança lindíssima da gravidez. Foi uma época mágica.
Durante o trabalho de parto, quase sem sabê-lo meu marido botou uma playlist com muitas das músicas clássicas que escutávamos nas aulas de ballet. Eram sons muito familiares e acolhedores, que nos acompanharam em cada momento até o nascimento da Lucila. E ela nasceu com uma energia muito boa, atenta mas calma.
Hoje ela vem comigo às aulas de ballet e fica olhando, brincando, falando na sua língua, com seus gritinhos engraçados. A sensação é que ela curte o ambiente. Ela veio às aulas desde pequenininha, com dois meses, e ficava calma. Agora, cada vez mais quer brincar, e até dançar com a gente. Então coloco no sling e faço a aula com ela.
Para mim retomar o ballet foi uma benção pois meu corpo tinha muita saudade  dos movimentos, e minha alma do ambiente que se vivencia nas aulas. Às vezes tenho me perguntado se não era egoísta da minha parte levar a Lucila, tão pequena, mas a sensação que eu me tenho cada vez que vamos à aula é que a energia da aula ela a recebe igual, ou ainda mais do que eu. E normalmente sempre curte muito. Acho que as imagens , os sons, as vibrações tão boas, tão cedo mesmo são ainda melhores. Eles são esponjas, absorvem tudo, tudo os nutre. Então mais ainda tem sentido fazer ballet com ela.
Acho que também me ajudou muito ouvir conselhos de mães muito presentes e muito felizes  de seu rol de mãe, mas ao mesmo tempo, muito ativas, conscientes de que o crescimento, o aprendizado é contínuo. A gente não cresce para parar de aprender, a gente não acaba a escola, a universidade para por fim "descansar". A gente deve aprender e se treinar e se exercitar até o último segundo da existência. Isso que eu quero transmitir a minha filha.
A vida é linda, longa e tem tempo para tudo. Eu comecei ballet adulta, e eu pretendo continuar até bem velha, se puder até meus últimos dias. Tomara que ela também goste no futuro. Mas seja o que for que ela escolha para fazer sua vida mais gostosa, o importante é transmitir o valor da busca interior pelo élan da vida.
Infinita gratidão à tia Thaís!"

Alana Lomónaco